Pular para o conteúdo
Projeto Asimov

Epic adota IA para criar jogo não anunciado da Disney

· 5 min de leitura

A Epic Games decidiu que humanos não precisam mais digitar cada linha de comando de seu próximo grande título. Segundo uma reportagem da Bloomberg citada pelo The Verge, a empresa determinou que o código e toda a arte de um jogo da Disney ainda não anunciado serão gerados com auxílio de inteligência artificial.

O projeto, que reúne personagens da Marvel e de Star Wars em formato de jogo de tiro, perdeu sua janela original de lançamento prevista para março. A nova data não foi divulgada.

Adeus ao código escrito à mão

Nos bastidores do projeto, a ordem interna foi direta. A equipe recebeu um mandato classificado como “AI-first”, orientando o uso intensivo de sistemas como o Claude, desenvolvido pela Anthropic. As ferramentas entram como esteiras de produção para acelerar a entrega do título atrasado.

De acordo com a Bloomberg, a liderança técnica foi enfática. Um dos diretores do jogo afirmou em mensagem à equipe: “No more hand-written code.” A diretriz artística seguiu o mesmo caminho. Os funcionários receberam o aviso de que toda a parte visual do projeto será “generated with full AI workflows”.

Pense nisso como trocar a marcenaria artesanal, em que cada peça de madeira é esculpida individualmente, por uma linha de montagem automatizada que precisa de operadores para calibrar os comandos. A promessa corporativa é agilidade, embora o processo mude totalmente a rotina de quem cria.

A posição da Epic Games e de Tim Sweeney

A empresa não nega o novo rumo. Em resposta à Bloomberg, o porta-voz da Epic Games, Jake Jones, afirmou que a companhia está “embracing AI-accelerated development”. Tanto a Epic quanto a Disney não responderam imediatamente aos pedidos de comentário feitos pela reportagem do The Verge.

O CEO da Epic Games, Tim Sweeney, foi às redes sociais para explicar a mudança de postura. No X, o executivo declarou: “We have a huge pivot underway here at Epic, moving developers around to retool for maximum AI acceleration.” Sweeney defendeu que o objetivo dessa reestruturação não é enxugar despesas operacionais ou fazer o mesmo trabalho com menos gente, mas permitir que as equipes criem “MORE and BETTER stuff”, estendendo essas vantagens técnicas a todos os criadores que utilizam o motor gráfico Unreal Engine.

Sweeney já vinha preparando o terreno público para essa transição técnica. Ele já defendeu abertamente que a plataforma Steam elimine a etiqueta de identificação “made with AI”, usando o argumento de que “AI will be involved in nearly all future production”. Movimentos similares de pesquisa e criação de ferramentas para estúdios também têm aparecido em empresas como Meta e Google, mostrando que o mercado de tecnologia corre em bloco nessa mesma direção.

A parceria de US$ 1,5 bilhão com a Disney

Essa produção conjunta não surgiu por acaso. A Disney investiu US$ 1,5 bilhão na Epic Games em 2024, selando uma colaboração comercial de vários anos entre as duas gigantes do entretenimento. O jogo de tiro estrelado por heróis da Marvel e guerreiros de Star Wars faz parte desse acordo plurianual.

Experimentos anteriores já haviam colocado personagens licenciados em contato com essas tecnologias. O jogo Fortnite, principal produto da Epic, já apresentou anteriormente figuras da Disney criadas ou adaptadas por esses métodos, como um Darth Vader de IA. A diferença substancial agora está na escala: a tecnologia deixa de ser um detalhe promocional dentro de um evento e passa a estruturar o desenvolvimento inteiro do produto.

O contexto interno e as demissões recentes

Apesar do discurso oficial focado em expansão criativa, o momento financeiro da empresa exige atenção séria. A Epic Games demitiu mais de 1.000 funcionários no mesmo ano de publicação da reportagem, que saiu em outubro de 2026. Os cortes ocorreram após a empresa enfrentar uma retração no engajamento de jogadores em Fortnite a partir de 2025.

A reportagem original não estabelece uma relação direta de causa e efeito entre o corte dos mais de 1.000 profissionais e a chegada do mandato de automação. Os dois episódios dividem as páginas da apuração, mas a fonte não apresenta dados que comprovem se a troca de métodos gerou novas demissões ou se as demissões forçaram a mudança técnica.

Também ficaram de fora da apuração vários detalhes cruciais. O texto não informa o nome oficial do shooter, o orçamento total do jogo, o tamanho atual da equipe nem qual porcentagem de código ou de arte foi efetivamente concluída por sistemas automatizados. Além disso, a posição oficial da Disney sobre a criação do jogo por esses meios não foi informada.

Por que importa

Você está acompanhando um teste prático de grande escala na indústria dos games. Quando uma empresa do porte da Epic Games decide aplicar fluxos completos de inteligência artificial em marcas globais da Disney, a forma de produzir jogos caros começa a mudar de endereço.

Se a estratégia der certo e o jogo for lançado com bom desempenho técnico, o modelo do mandato “AI-first” poderá virar padrão operacional para todo o ecossistema que utiliza a Unreal Engine. Se o resultado falhar em agradar o público ou gerar falhas técnicas graves, a aposta de Sweeney revelará os limites práticos de tentar acelerar o desenvolvimento criativo sem o trabalho manual de código e arte.

Fontes

  1. The Verge — AI — “Epic shifts to ‘AI-accelerated development’ for upcoming Disney game” — https://www.theverge.com/games/1010097/epic-games-disney-project-ai-coding-art

Tags: Epic Games, Disney, Inteligência Artificial, Games, Fortnite

Veja também

Meta lança Muse Wonder, seu primeiro modelo de fronteira

· 5 min de leitura

O Meta Superintelligence Lab lançou Muse Wonder e Muse Wonder Full, a primeira tentativa da empresa de fazer um modelo de fronteira. Os números de desempenho vêm só dos testes da própria Meta.

Apple HomeView: a tela inteligente que não larga o iPhone

· 6 min de leitura

A Apple apresentou o HomeView, sua primeira smart display, por US$ 299, com Siri AI e pré-venda aberta. Pela primeira impressão do The Verge, é bonita e bem ligada ao iPhone, mas sem novidade fora disso.

← Voltar ao início

Receba a newsletter do Projeto Asimov

Um resumo dos melhores artigos, direto no seu e-mail.